domingo, 18 de setembro de 2011

Dez coisas que terei e não terei saudade em Londres


Dez coisas de Londres de que sentirei saudade:

1 – Dos parques.
2 – Dos museus.
3 – Do Tâmisa.
4 – Da Guinness bem tirada.
5 – Dos double-deckers.
6 – Do crèpe de Hampstead.
7 – Das noites silenciosas de Hampstead.
8 – De Hampstead como um todo.
9 – De minhas reuniões de orientação com prof. Daniel Miller.
10 – Da diversidade cultural e etnica. Viva a diversidade e protejamos o diferente!

Dez coisas de Londres que não sentirei qualquer saudade:

1 – Do fraco NHS – sistema nacional de saúde.
2 – Da grosseria gratuita, principalmente dos jovens freqüentadores do metrô.
3 – Do pouco caso da cidade em relação aos cadeirantes e idosos.
4 – Da indiferença das pessoas em relação às outras.
5 – Das insuportáveis sirenes tanto da polícia quanto das ambulâncias.
6 – Dos muitos ratos que vivem por aqui.
7 – Da sujeira da cidade.
8 – Da gastronomia inglesa.
9 – Da flagrante falta de hábito de tomar banho e usar desodorante de alguns, principalmente nos transportes públicos.
10 – Das imobiliárias.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A Rede Globo na cobertura dos acontecimentos em Londres

Londres nunca será a mesma depois dos distúrbios desta semana que passou. Nós também não. A semana foi tensa e cheia de interrogações. Um dos pontos que também me chamou a atenção foi a cobertura jornalística do acontecimento por parte da Rede Globo de Televisão. Não sou daquele tipo de brasileiro que, por definição, desvaloriza tudo que é de seu país e só valoriza o que vem do dito primeiro mundo. Se pensarmos com cuidado, o dito primeiro mundo nem existe, assim como o terceiro. O que temos é um só planeta cansado de ser explorado pela fome de poder que nos impede de dar o passo necessário na direção de uma sociedade mais evoluída, menos egoísta e com novos valores.

Voltando à cobertura dos acontecimentos aqui de Londres pela Rede Globo de Televisão, encontramos uma grande amostra do que nos impede de socialmente prosseguir. Suas práticas lembram-nos alguns totalitarismos que abarcaram o mundo no meio do século passado.

Em busca da audiência, a Globo desprezou familiares e amigos de brasileiros que residem na Inglaterra. Esta rede de televisão mostrou os sérios distúrbios que ocorreram em Londres de uma forma exageradamente editada que passava a certeza de que Londres estaria em chamas. Sim, vivemos em um mundo editado pela mídia e para sairmos dele será preciso muito mais do que fim da Globo. Entretanto, a Globo exagera em sua obesidade editorial. Muitas vezes, ao assistirmos às suas reportagens, podemos rememorar os tempos do jornal Notícias Populares.

Uma rede de televisão privada, sem dúvida, tem suas inclinações políticas e objetivos mercadológicos. É possível entendermos, apesar de discordarmos, estratégias que priorizam baixa qualidade e pouca profundidade da programação em busca de audiência, já que apenas números importam a esta emissora. Também não é difícil compreender os interesses políticos deste canal ao dar mais espaço em sua programação para este ou aquele partido político. Estas atitudes, ainda que criticáveis, mostram-se atenuadas diante da irresponsável edição que a emissora mostrou dos fatos em Londres. Infelizmente, este é só um exemplo de uma conduta jornalística que vem se tornando cada vez mais comum.

O triste episódio não aconteceu em toda Londres e nem tampouco em toda Inglaterra. Alguns bairros da cidade sofreram muito com os ataques, mas não foram todos. Apenas algumas cidades do país tiveram partes atingidas. A Globo tem potencial para ser uma grande emissora de TV. Tem nas mãos o poder da liderança de mercado e deveria ter a responsabilidade de arriscar um processo de mudança em nosso país. O poder que tem é muito grande, mas, infelizmente, junto com ele vem sempre a necessidade da manutenção do que está estabelecido, do sistema que aprendeu a dominar.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Saques e arrastões em Londres: um sintoma social

Posso dizer, com considerável grau de tranqüilidade, que uns dos pontos positivos destes meses que tenho morado em Londres é o distanciamento que vivo da nossa mídia jornalística. Soube da morte da cantora Amy Winehouse, por exemplo, através do Uol que tratou o tema de forma exaustiva. Logicamente que os veículos de comunicação ingleses noticiaram a morte da cantora, mas pararam por aí. Especial no horário nobre do domingo só no Fantástico mesmo. Confesso que é muito bom estar longe do “Show da Vida”. É um alívio estar a milhares de quilômetros desta opressão jornalística que vivemos atualmente no Brasil: qualquer fato torna-se notícia e qualquer notícia é transformada em produto para vender mais e mais e mais. A audiência é o que conta, os fatos, a informação são meios de se chegar lá. É só lembrarmos dos últimos acontecimentos trágicos narrados pelos nossos jornalistas como se fossem um reality show.
Não que os veículos ingleses não usem da mesma estratégia em busca de audiência. Sim, mas o que é diferente por aqui é que o exagero midiático é menor e a participação das “verdades” jornalísticas no cotidiano é menor. Entretanto, no sábado que passou foi diferente porque o que houve aqui em Londres foi bem distinto do que se vê no dia-a-dia. Liguei a TV no canal de notícias da BBC e lá estava uma imagem de um grande incêndio com uma paisagem ao lado já meio familiar para mim: casas, fachadas de lojas e ônibus tipicamente Londrinos. Pensei comigo: “isto está acontecendo por aqui, em algum bairro desta cidade”. As notícias contavam o acontecido em Tottenham, bairro ao norte de Londres. Um grupo de “manifestantes” estaria protestando a morte de um jovem na última quinta-feira, vítima de um tiroteio com a polícia. As notícias do sábado ainda davam uma ideia de manifestação, apesar da violência das cenas. Entretanto, os dias foram passando, ou melhor, as noites, horário preferido para a violência, e a manifestação tomou o formato de vandalismo com saques a lojas e a supermercados. Lojas de celulares, supermercados, grandes magazines, lojas de roupas e outros estabelecimentos estavam sendo invadidos por jovens que entravam quebrando toda e qualquer proteção para levar os produtos para casa.
Nestes dias, o clima na cidade foi de muita expectativa e medo. Não se sabia muito que fazer em uma situação como esta. Na dúvida, a recomendação era que ficássemos em casa, principalmente à noite. A atmosfera Londrina daquele momento me lembrou São Paulo de alguns anos quando o PCC ameaçou o caótico, mas conhecido por todos, dia-a-dia da cidade. Minha rua na Vila Mariana, pela primeira vez em quinze anos que moro lá, ficou horas e horas sem passar qualquer carro, dormindo em um inédito e inesquecível silêncio. Londres não estava assim, silenciosa, mas o clima era parecido: medo, receio, desconfiança, ansiedade. Os ingleses de nosso dia-a-dia se diziam envergonhados com o acontecido. Não sabiam explicar e criticavam levemente sua polícia, tida por eles, até então, como motivo de orgulho. Consideraram-na “soft” demais para um acontecimento como este. Compararam com a polícia norte-americana. Diziam que se fosse nos EUA, esta rebelião só teria durado um dia. Talvez assistam filmes demais para chegar a esta precipitada conclusão ou talvez tenham alguma razão no que falam. Só sei que a tão criticada polícia brasileira não receberia pedradas dos manifestantes de forma tão passiva e defensiva como fizeram os amedrontados policiais daqui. Mas, a verdade é que não estávamos nos EUA em no Brasil. Londres é lugar de desejo de dez a cada nove jovens brasileiros. Imaginei agora estes números. Mas, pouco importa sua precisão. Se são oito ou sete em cada dez, o que sabemos é que nossos jovens brasileiros, em sua maioria, idealizam esta cidade como sendo sinônimo de paraíso, objeto de desejo. Indubitavelmente ela tem algumas qualidades que justificam tal idealização. A questão é que a análise é sempre feita parcialmente: o Brasil só tem problemas como violência, desigualdade social. Por outro lado, países como a Inglaterra são superiores porque a violência não existe e a desigualdade social não passa de um problema do dito terceiro mundo. Engano nosso. O que aconteceu em Londres não foi uma manifestação pacífica de iguais socialmente. Vimos bandos de jovens saqueando violentamente o patrimônio de famílias que trabalharam anos e anos para ter um negócio. Muitas lojas pertencem a grandes redes que conseguem recuperar-se rapidamente do prejuízo, se chegarem a senti-lo, mas algumas são de pessoas que dificilmente recuperarão seu patrimônio. Perderam o que tinham. Londres não será a mesma depois desta semana que passou.
Não é fácil definir um perfil específico para os participantes dos saques. Inicialmente, imagionou-se que seria possível, mas as imagens dos tumultos revelaram diferentes formas e origens. São jovens ingleses, netos de uma geração que passou por guerras, fome, pestes. Filhos de pais que pouco controlam o que fazem os adolescentes que trouxeram ao mundo. É nítido nas ruas este fato. Adolescentes são vistos aos bandos totalmente desrespeitosos com o próximo, e agressivos com todos e com tudo. Cenas de agressividade e violência cotidiana são comuns nos vagões do metrô. Relatei outro dia uma cena destas, quando uma adolescente entrou empurrando a todos no vagão do metrô só para poder conseguir um lugar para sentar e se maquiar. A crise moral e de valores é nítida.
Como sempre, estes acontecimentos trazem muitas versões. A oficial diz que estes “saqueadores” são bandidos que se aproveitaram da situação para roubar e saquear lojas. A de alguns imigrantes, inicialmente acusados pelo fato pela TV, é que são adolescentes que recebem tudo do governo e nunca precisaram trabalhar, seriam bandidos produzidos pelo próprio sistema. Os ingleses que conheço dizem não entender o fato, principalmente por ter ocorrido aqui em Londres, lugar de muita diversidade cultural que estaria livre de manifestações como estas por ter desenvolvido relativa tolerância étnica. Entretanto, pelo que parece, não há nada de étnico e nem tampouco de vagabundo nesta manifestação. A velocidade e a amplitude das articulações invejariam qualquer estrategista de guerra. Em segundos os lugares eram saqueados e depredados por jovens com rostos tampados, sem qualquer chance para a simpática, mas lenta polícia inglesa reagir. Sem dúvida, em meio aos manifestantes poderia haver de tudo: bandidos, ingleses filhos de um sistema paternalista que “colhe o que plantou”, imigrantes etc. Mas, este fenômeno deve ser encarado com um termômetro social muito preciso. A questão é bem menos simples do que quer encarar a BBC e os jornais brasileiros que assustaram bastante nossos familiares e amigos.
Londres, como centro nervoso do mundo, mostra certo cansaço. A sociedade está cansada, talvez nosso planeta esteja cansado de tanta exploração. Invasões, destruições e saques à natureza são a marca de nossos tempos. Não é à toa que estes jovens ingleses usaram tal estratégia para se manifestar. Muitos entre nós orgulham-se de nossos tempos pelo seu desenvolvimento tecnológico, quando quase todos têm um aparelho celular e o objetivo é que aconteça o mesmo com as “tabletes eletrônicas”. Dizem estes: país desenvolvido é aquele em que todos têm acesso à tecnologia de ponta. Entendem, tecnologia de ponto como sendo celulares e tabletes, desconsiderando que em alguns lugares falta água encanada, comida na mesa e educação. A civilização está cansada desta empreitada moderna pelo desenvolvimento tecnológico atrás do sonho de um impossível mundo homogêneo e puro, sem desvios de norma. O que houve em Londres deve ser encarado como um sinal. O que assusta nestas manifestações de violência que aconteceram por aqui é que elas foram realizadas por jovens que articularam os atos via BlackBerry, objeto de desejo da juventude de hoje. Os atos eram contra lojas que vendiam produtos que são, para nós, mais do que algo a ser comprado, são símbolos de distinção social. Celular, computador, tênis, roupas, carros são objetos que possuímos também para nos distinguir socialmente, mostrar quem somos e quanto poder aquisitivo temos. Ter um iPad hoje, virou quase obrigação social. Mesmo ainda tendo dificuldades para explicar para que serve, qualquer adolescente sonha em usar seu iPad 2. Assim pode abrir seu perfil no Facebook e postar onde está naquele momento para seus amigos verem o quanto distinto socialmente é pelo lugar que freqüenta. Tudo isto em tempo real. Estamos nos esquecendo da base. Ensinamos aos nossos jovens que o que importa é o dinheiro porque este é viabilizador da distinção. Londres é o centro nervoso de um mundo capitalista que vive em uma modernidade levada ao extremo, onde se dá a vida pela posse de um produto reconhecido socialmente. A questão não é nem da posse do produto em si porque se assim o fosse, bastava tê-lo. É uma questão do direito à posse. Já que os sujeitos valorizados socialmente têm, estes jovens sentem que também podem ter. Desta forma, arriscam-se e saqueiam lojas para ter acesso a um produto que os distinguiria socialmente. Frustram-se porque a mágica não está no produto em si, este é um vazio. Assim, saqueiam, saqueiam e saqueiam e o sonho não se realiza. Vivemos um tempo de desejos infinitos que são projetos na compra deste ou daquele produto. Dizemos que “necessitamos muito daquilo” e ao comprar percebemos que a necessidade não é suprida, parece que necessitamos necessitar sempre. Nossa civilização precisa de uma transformação moral e esta parece estar a cargo de gerações que ainda estão por vir. A de nossos jovens parece estar a serviço de nos mostrar que algo está muito errado e o caminho que escolhemos não nos levará a lugar nenhum.
Voltando ao episódio, o clima foi de muita tensão, estranheza e reflexão. Resta-nos a coragem de ter algumas reflexões.
Estaria Londres tão preparada como imaginavam todos para os jogos Olímpicos do próximo ano? Será que apenas o Brasil é um país com problemas sociais graves como querem crer muitos de nós mesmos? Será que não estaria na hora de lermos um pouco menos a Veja e assistirmos um pouco menos à Globo e acreditarmos que vivemos em um país melhor do que querem estes veículos? Assim como afirmou Baudrillard, o Brasil é ainda um dos países onde há resquícios de esperança para o mundo. Ainda temos sinais de uma cultura mais pura, mais brasileira, menos contaminada por esta civilização moderna e cansada que trouxe à tona seus sintomas de violência neste ato de jovens ingleses esta semana.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Saudade do Brasil

A vida é engraçada mesmo.
Nunca pensei que sentiria tanta saudade dos serviços da Net, dos laboratórios Fleury, do Hospital Oswaldo Cruz, da secretária do meu médico, do metrô de SP nos finais de semana, do bom dia sincero do meu vizinho, do pão na chapa da Charme, do seu Chiquinho, da doação de sangue do Hospital São Paulo, da bagunça dos meus alunos e do calor abafado de São Paulo.
Morar fora tem destas coisas. Aprendemos a olhar o que é transparente em nosso dia-a-dia. Algumas coisas, ao deixarmos de ter, tornam-se coloridas para nós. Não vejo a hora de voltar a ter a liberdade de ir ao médico que eu quiser, de contratar o serviço de internet que eu bem entender, tratar decentemente dos meus dentes e comer uma comida saborosa com um percentual baixo de gordura.
Saudades do Brasil. Saudades da minha gente. Saudades do visual da minha gente.
Por outro lado. Quando voltar ao meu país, sentirei falta do Tâmisa, da pint of Guinness, dos parques e dos museus. Isto é ser humano. Viverei dividido, mas muito feliz porque meu lugar é no Brasil.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Egressos ESPM na Inglaterra II - Bate-papo em Windsor com Marisa Tayti


Em uma tarde tipicamente inglesa com vento frio e mudanças repentinas de tempo, visitei a simpática e bucólica Windsor. Para uma cidade que nasceu para atender às necessidades do conhecido castelo, Windsor é mais do que parada obrigatória não só para turistas, mas também para os que aqui ficam apenas por um tempo como eu. O Tamisa passa calmamente na cidade e compõe a paisagem juntamente com o imenso castelo no topo da colina. Além do rio e do castelo, Windsor também é conhecida por se localizar próxima ao importante Eton College.
Neste cenário, entrevistei Marisa Tayti, designer de embalagem e ex-aluna do curso de Comunicação Social da ESPM que, atualmente, trabalha em uma empresa inglesa de Design de Embalagens e Branding chamada 1HQ localizada na cidade de Windsor.

Confira o perfil e a trajetória de Marisa Tayti, 30 anos, egressa da turma de 2002 do curso de Comunicação Social da ESPM – São Paulo.

João: Conte, brevemente, sua trajetória pessoal e escolar até ingressar na ESPM (cidade de origem, colégio em que estudou, opções de curso e escolhas para o vestibular, o processo de seu vestibular etc.)

Marisa: Nasci em São Paulo capital, em 1980. Sou a terceira geração de imigrantes japoneses, ou seja, meus avós imigraram pro Brasil quando ainda crianças, e assim como eu, meus pais nasceram no Brasil.
Entrei na escola aos 4 anos de idade, no Colégio Anglo Latino, no bairro da Aclimação. Nunca fui uma aluna exemplar, sempre tive notas na média, algumas abaixo e poucas acima. Meus pais nunca me falaram muito de carreiras profissionais, o que eu sabia era o que eu via na minha família.
Minha mãe é formada em Arquitetura pela USP, mas sempre trabalhou como estilista de moda.
Meu pai é formado em Engenharia Civil pela USP, mas sempre trabalhou em bancos na área de sistemas.
Eu acho que as minhas escolhas se basearam nas pessoas ao meu redor. Primeiro a minha mãe, ela sempre estimulou a minha criatividade, mas por alguma razão nunca pensei em trabalhar com moda ou arquitetura. Talvez fosse o medo de nunca ser tão boa como ela. Aí, tem a minha prima de segundo grau, 8 anos mais velha que eu, mas que eu achava "descolada". Ela fez publicidade na USP.
E em terceiro, se eu não estiver me esquecendo de ninguém, vem a minha irmã mais velha formada em Medicina.
Na minha família sempre teve uma 'certa' obrigação para se fazer faculdade, e uma leve pressão implícita para ser na USP.
Bom, para resumir, nos meus últimos anos de colegial, eu resolvi prestar medicina. Fiz cursinho semi-intensivo junto com o colégio e pensava que queria ser ou ortopedista ou cirurgiã plástica. E que na pior das hipóteses, não tinha como dar errado, afinal nunca tinha visto médico pobre. Prestei só FUVEST e não passei.
Daí, entrei pro cursinho de novo e, dessa vez, meu pai falou: "Ainda bem que você não passou, né?". Querendo dizer que eu estava 'viajando' em prestar Medicina, e eu concordo, foi um alívio! Dessa vez estudei pra Publicidade e queria ser diretora de arte. Era 1998 e prestei FUVEST e ESPM. Reprovei na FUVEST e passei na ESPM, em 15º!

João: Agora, conte-nos como foi seu período de curso na ESPM (lembranças que carrega da graduação, primeiros dias de aula, os semestres, a ida para a noite, o início de estágio, atividades na escola, estágios realizados, opção de carreira – escolha de minor, PGE etc.)

Marisa: Eu lembro que o que eu mais gostei da ESPM é que não era assustadora, parecia um colégio, um ambiente familiar. A turma era bem normal também, a grande maioria de São Paulo capital mesmo, classe média, uma turma bem homogênea. O que eu acho interessante é que eu sempre fui minoria oriental tanto no colégio quanto na faculdade, talvez por não ter entrado nas 'melhores' instituições como Etapa/Bandeirantes ou USP. Mas, acho melhor assim, não gosto do rótulo de “nerd”, mesmo porque nunca se aplicou a mim.
Eu me lembro de ter achado as aulas muito interessantes, Marketing, Psicologia, Lógica, História da Arte, Ética ... eram assuntos em aula que, pela primeira vez na vida, não me entediavam! (Como eu odiei escola e cursinho! só depois que eu pude perceber)
Eu gostei mais das aulas teóricas do que das práticas tais como Informática e Fotografia. No primeiro ano de faculdade, eu dava aula de Inglês numa escola de bairro e depois consegui um estágio numa empresa de informática, no departamento de Marketing. Eu me lembro de não ter sido muito fácil a fase das entrevistas, dinâmicas de grupo, mandar currículo etc. Nunca consegui passar em nenhuma dinâmica de grupo, ainda é um mistério para mim. Lembro de ter tentado todas as empresas grandes como Unilever, Elma Chips, Johnson & Johnson ...
Bom, depois dessa empresa de informática fui parar num portal de internet. Eu acho que foi através da Catho. Era bacana, lá na Vila Olímpia, mas envolvia muitas planilhas de Excel e eu sentia que não era bem o que eu gostaria de fazer. Depois de um tempo apareceu a oportunidade de um estágio em uma agência de marketing esportivo chamada Promosports. Também não deu certo. Durei alguns meses apenas e, em seguida, consegui um estágio com a art buyer da Newcommbates (atual Y&R). Quando esse estágio terminou, fui para a B\Ferraz, uma agência de eventos, meu primeiro estágio na Criação! Estava ficando quente. Naquela época a gente atirava para todos os lados, mandava currículo para tudo que é agência de publicidade, até que fui chamada na Neogama. Chegando lá, descobri que era para ser estagiária de atendimento da Issa DA, a agência de design da esposa do Alexandre Gama. Nem preciso falar que não deu certo porque se não nasci pra trabalhar em Atendimento, então era como ter um pesadelo acordada. Após 3 meses de muito perrengue, me mandaram embora, mas a Cláudia Issa me deu uma lista de nomes que era para eu entrar em contato e falar que eu era indicação dela.
A primeira agência da lista a 100% Design, me ofereceu um estágio logo de cara. E eu lembro claramente de ter a sensação de finalmente estar me encontrando... Foi assim que entrei pro mundo do design de embalagem que estou até hoje. A história não acaba aí, mas esse foi o meu último estágio e, logo depois, fui contratada como designer junior pela Design Absoluto.
Eu acho que a prática foi o que mais me ensinou sobre minhas vocações, mas a faculdade é um processo importante de amadurecimento, de convívio (cervejadas!), aprendizado de trabalho em equipe (lê-se PGE), dedicação e comprometimento. No meu caso específico, analisando a minha carreira hoje em dia, se eu pudesse escolher de novo, teria feito um curso mais ligado à arte, talvez arquitetura ou desenho industrial.

João: Conte brevemente seu percurso profissional após a graduação.

Marisa: Depois de formada, fiquei ainda 2 anos estagiando, até conseguir o emprego na Design Absoluto como designer de embalagem junior. Entrei na carreira totalmente por acaso, mas parecia que eu já tinha nascido fazendo aquilo, foi gostoso me encontrar profissionalmente. Depois de quase 2 anos, surgiu a oportunidade de fazer um estágio numa agência na Inglaterra, chamada Vibrandt (hoje se chama 1HQ), foi assim que pedi demissão e vim de mala e cuia em 2006. Comecei estagiando de graça, fiquei 6 meses só de café-com-leite, tentando melhorar meu inglês e aproveitando pra curtir a vida. Finalmente me ofereceram um emprego e fui promovida mais 2 vezes depois disso e hoje sou senior designer, especializada em embalagem.
Mas viajar foi com certeza o que abriu a minha cabeça. Fiz cursos em Nova York e Londres, e eu achei uma ótima maneira de conhecer pessoas, fazer contatos.

João: Agora, conte-nos sobre o processo de sua vinda para Londres e sobre sua condição de trabalho atual (empresa em trabalha, área de atuação, principais atividades que executa, a quem responde hierarquicamente) e perspectivas futuras nesta empresa e no mercado de trabalho.

Marisa: A 1HQ é especializada em branding e design de embalagem e produto. A grande maioria dos nossos clientes é de FMCG (fast moving consumer goods), sendo eles Unilever, Premier Foods, Nestlé.
No geral trabalhamos em duplas ou trios e, sendo Senior, em projetos pequenos eu gerencio middle-weights e juniors, além de ilustradores (visualisers), e apresento projetos pra clientes. Em todos os projetos eu sou supervisionada pelos design directors e/ou diretora de criação. No momento eu gostaria de investir na minha carreira de senior, pra daqui a uns 3/4 anos chegar à posição de design director. Nessa ou em outra empresa.

João: Falando de futuro, como planeja dar continuidade ao seu aperfeiçoamento profissional? Pretende continuar os estudos? Em que área e universidade?

Marisa: Eu gostaria de me aperfeiçoar como designer gráfica. Já pensei em estudar mais artes visuais gráficas tais como tipografia, ilustração e fotografia. Mas, também entender um pouco mais da natureza humana, por isso pensei em estudar semiótica.

João : Como você avaliaria a participação da ESPM em sua formação acadêmica e profissional?

Marisa: Poderia ter sido melhor. Acho que entre fazer ESPM e não fazer faculdade, eu fico com a primeira opção porque faculdade, no geral, é um ótimo jeito de fazer networking social e profissional, que no fim das contas é fundamental hoje em dia na área de comunicação. Mas, eu sinto falta de não ter estudado arte.

João: Em que você acredita que a ESPM poderia ter colaborado mais em sua formação? O que faltou em seu curso, em sua opinião?

Marisa: Mais palestras de profissionais da área.

João: Quais seriam suas dicas para os alunos de Comunicação que pretendem trabalhar em criação de embalagens?

Marisa: Manter-se muito informado, ler bastante, colecionar coisas, ser muito curioso, sabe? Viajar bastante, não ter medo de mudar de carreira, tomar riscos, tentar se auto-conhecer.

João: Algumas frases interessantes de Marisa, ditas informalmente depois da entrevista.

Marisa: Sobre sua decisão de trabalhar em criação. - Quando entrei na faculdade, não sabia direito o que queria fazer. Só sabia que eu gostava de desenhar.

João: Sobre sua entrada na empresa 1HQ em Windsor. - Acho que eu negociei mal quando comecei. - Eu fiquei tão honrada por me oferecerem o emprego que aceitei na hora. Nem pesquisei como estava o mercado.

Marisa:
Sobre sua carreira na Inglaterra.
- É estranho pensar o que te trouxe até aqui. Você não planeja. - Eu não planejei ficar por cinco anos. Foi indo. - O caminho até aqui foi tortuoso. - É preciso pensar o que você quer. Visualizar.

Sobre a vida na Inglaterra.
- Tudo fica mais amplificado quando você está aqui. Diminui e intensifica o tempo todo. - Às vezes, eu me sinto em uma bolha aqui. - Aqui você esquece seu padrão de vida. - Você baixa a bola.

Sobre o mercado de trabalho na Inglaterra.
- Aqui o mercado oscila muito. - As empresas têm uma vasta carteira de free-lancers. - Muita gente trabalha seis meses, viaja seis meses.

sábado, 11 de junho de 2011

Fetiche pelo método - uma reflexão


Os métodos de pesquisa tornaram-se, para alguns pesquisadores, uma espécie de “fetiche”. Não é incomum bancas de mestrado e doutorado, ao darem seus pareceres, pesarem em demasia a mão na parte metodológica de dissertações e teses. Com isto, inevitavelmente dão menor importância aos objetos de estudo, às análises e às reflexões apresentadas. Há, inclusive, manuais de metodologias e certas “bíblias” metodológicas que têm suas leituras e citações cobradas pelos que desequilibram seu julgamento nestas bancas. Quando isto acontece, a escolha do método toma lugar principal nas discussões que, na maioria dos casos, tornam-se políticas. Os discursos que defendem este ou aquele método trazem um conteúdo não só técnico, mas também de filiações. O que é dito é que se questiona a adequação do método ao objeto, mas o que se defende mesmo nestas discussões metodológicas é a preservação de posições de poder. Bourdieu já denunciava este tipo de comportamento em seus trabalhos. O fetiche pelo método nas discussões busca a preservação de um lugar dominante em um determinado campo e não a construção passa a passo de um raciocínio pautado na adequação do método aos objetivos e objetos de estudo.
Assim, trabalhos que trazem questões e enfoques um tanto inovadores tendem a ser taxados de menos científicos se não se encaixarem nos métodos politicamente consagrados pelos dominantes do campo em questão. Alguns são refeitos e adaptados ao modelo vigente e aceito por quem domina. Chega-se até a distribuir regras por escrito que incluem quais métodos de pesquisas são aceitos como legítimos e quais não. Caso um trabalho não aplique exatamente o método escolhido no formato do manual, pode ser taxado de não-científico. Critérios de cientificidade criados a partir de conveniências políticas e não de pesquisa. Ao mesmo tempo, há uma preocupante incoerência quando se cobra de estudantes e pesquisadores estratégias e enfoques inovadores. Não é difícil encontrarmos nas diretrizes de revistas acadêmicas, por exemplo, exigências por trabalhos que trazem um enfoque inovador e diferenciado em relação ao que já foi pesquisado sobre um determinado objeto. Como é possível termos algo novo e consagrado a partir de diretrizes metodológicas pré-estabelecidas? Este é um nó que um dia precisamos desatar. Se buscamos novidades, precisamos enfrentar o novo sem medo, sem receio da perda dos lugares dominantes. O novo sempre irá gerar uma tensão em quem está no poder. O trade off é necessário. O lugar de dominante precisa ser ameaçado pela inovação, para não termos uma produção do conhecimento que roda em torno de si mesma. Produzimos pesquisas inovadoras a partir de métodos já consagrados que engessam estas pesquisas trazendo-as ao patamar do que já é conhecido. Ou seja, não inovador. Não defendo a libertinagem metodológica. Mas, é preciso que os dominantes dos campos do conhecimento se movimentem no sentido de permitir que sopros de juventude voltem a perpassar pelo mundo da pesquisa acadêmica e permita que as inovações realmente façam seu papel: inovar. Séculos e séculos de discussão se passaram e a ideia de ciência parece ainda rodar em falso muito pelo peso político que se dá na escolha dos métodos. Temas inovadores pesquisados através de métodos conhecidos é um casamento arranjado, um matrimônio por conveniência. Entre quatro paredes as diferenças começam a aparecer e uma relação sem intimidade afetiva tende a não ter futuro. É comum nestes enlaces adaptações de percursos anteriores aos novos locus e corpus que se apresentam no contemporâneo. É o caso da internet.
Ao pesquisarmos objetos de estudo pertencentes à internet, os métodos mais tradicionais dificilmente nos ajudariam a analisar e refletir com a profundidade que estes demandam. O início dos estudos da internet contou com a busca de aplicações de métodos tradicionais de pesquisa ao mundo online e muitos ainda insistem neste caminho. Categorizações, estudos quantitativos e qualitativos são, insistentemente, aplicados ao mundo online sem qualquer reformulação. Imaginou-se que o mundo online seria uma verdadeira metáfora da vida offline. O tempo se encarregou de mostrar que o ciberespaço não é nem uma simulação digital da vida offline nem uma segunda vida, como chegaram a pensar os inventores do Second Life. Este jogo, que chegou a contar com investimentos milionários por parte de empresas, não correspondeu às expectativas por, simplesmente, oferecer ao internauta uma tentativa de simular uma vida offline. Os defensores do Second Life diziam que lá você poderia experimentar o que não poderia em sua vida normal, lá você seria o que você não poderia ser fora do ciberespaço. Entretanto, usuários do mundo todo experimentaram e não gostaram da qualidade desta experiência. A vida offline já basta para os internautas. Estes não procuram uma simulação de uma vida que já vivem no dia-a-dia. Trabalhar para ganhar dinheiro para poder comprar bens já é algo bastante duro na vida de todos nós e basta. Para que reproduzir conscientemente o mesmo funcionamento para dentro de um jogo. Há uma busca por diferentes experiências, por algo novo em relação à dura vida chamada de “real” por alguns. Algo mais novo, na linha do que as redes sociais como Orkut e Facebook oferecem.
Quanto mais nos aprofundamos no mundo das redes digitais, mais percebemos que as fronteiras entre o online e o offline estão sendo dissolvidas. A ciborguização do nosso dia-a-dia expressa a mistura entre a tecnologia e a vida cotidiana. Os devices tecnológicos estão, cada vez mais, deixando de ser apenas acessórios para tornarem-se parte integrante de nosso cotidiano. Alguns estudos que buscam entender a cibercultura tornam-se limitados quando se restringem às fronteiras da internet. Superficialidade e visões apaixonadas são ameaças para uma pesquisa que se restringe a estudar um objeto apenas em sua manifestação online. Redes sociais, por exemplo, são manifestações online e, sem dúvida, devem ser pesquisadas a partir de suas páginas na internet. Entretanto, há o risco de uma generalização e restrição nas reflexões quando desconsideramos determinados aspectos do perfil dos usuários de uma rede social. Entender em uma pesquisa os usuários de um site de relacionamentos como o Facebook, por exemplo, como um só grupo que pode ser dividido em uma ou duas categorias a partir, exclusivamente, de seu comportamento online é a porta de entrada para a superficialidade e para o imediatismo nas reflexões. Se pensarmos rapidamente sobre o Facebook, podemos concluir que não existe apenas um Facebook comum para todos os usuários. O significado deste varia de indivíduo para indivíduo, de lugar para lugar. As apropriações deste site garantem uma importante diferença simbólica, no mínimo, no patamar dos grupos que o utilizam. Qualquer definição que generalize as razões de se estar no Facebook pode ser um erro na medida em que não falamos por todos. O erro recorrente em pesquisas na internet se dá a partir da tentativa de generalização das reflexões. Pesquisas quantitativas não nos dão mais do que quantidades. Há estudos que dizem concluir, a partir de observações restritas ao mundo online de alguns perfis de usuários desta rede social, como se dá o comportamento dos usuários do Facebook e quais as principais motivações de se estar lá. Não é possível generalizarmos tais conclusões. O Facebook é único para cada um de seus usuários. Isto é o que nos ensina a Antropologia. Ao invés de buscarmos entender um objeto como o FB considerando que todos seus usuários são iguais, só conseguiremos compreender mais profundamente os fenômenos que o envolve constatando que os que o utilizam o fazem por razões diferentes. Por exemplo, dizer que no Facebook haja três categorias de comportamentos online: hanging out, messing around e geeking out, como querem que acreditemos os autores de um livro que traz como título estas três categorias é um equívoco. Este livro apresenta uma pesquisa realizada na superfície porque busca amplitude em não profundidade em seu caminho. O mundo do marketing nos trouxe um vício arriscado, imaginar que o consumidor de coca-cola, por exemplo, seja o mesmo indivíduo no mundo todo e que podemos ser todos iguais quando o assunto é este refrigerante. Assim trabalha o livro Hanging Out, Messing Around and Geeking Out. Para seus autores, os jovens que utilizam a internet se dividem em três grupos e ponto final. Como se realmente a hipótese da Aldeia Global de McLuhan tivesse finalmente chegado ao seu ápice. Para o senso comum, globalização seria isso: somos todos cada vez mais iguais no mundo todo. Entretanto, as diferenças culturais, geográficas, socioeconômicas e políticas garantem a distância que estamos desta normalização da vida, quando todos pensariam igualmente, comprariam as mesmas coisas, teriam os mesmos desejos e usariam a internet pelas mesmas razões.
O mundo da publicidade também insiste na ideia de que somos todos iguais diante de um determinado desejo de consumo, como se isto fosse possível. Todos que tomam coca-cola ou usam uma marca de roupa são iguais, pois compram a mesma marca. A antropologia mostra o contrário. Nenhum consumidor de coca-cola ou de determinada marca de roupa consome pelo mesmo motivo, através das mesmas motivações. Cada momento de consumo é único e cada razão tem sua peculiaridade. Pesquisar o Facebook apenas através de suas páginas online nos leva a generalizações que tornam nossos estudos superficiais, restritos e imediatistas como é o caso do livro que comentei. Pesquisadores que estão focados em uma compressão mais aprofundada da cibercultura precisam se esquivar dos métodos já consagrados, apesar de exigidos pelos dominantes, e escapar da tentação do imediatismo e comodismo da restrição do campo às fronteiras da internet. Há publicações, além do livro que citei, que seguem a linha da superficialidade ao categorizar usuários da internet entendendo seus comportamentos, atitudes e desejos como genéricos. O resultado é um ciclo de apontamentos e trabalhos que não fazem mais do que dizer sempre a mesma coisa, idealizando a internet como um ambiente democrático que propicia liberdade criativa aos jovens e enxergando os mais jovens como nativos digitais e os mais velhos como seres que tiveram que aprender o uso da tecnologia à força. A vida acontece além destas fronteiras fechadas e deste determinismo tecnológico que tornam parciais os estudos da cibercultura. Precisamos ir além para realmente discutirmos o que a tecnologia atual tem feito conosco. Não será com visões amplas e, portanto, superficiais que conseguiremos entender o consumo que a tecnologia tem feito de nós e não o contrário. Saber que o iPad 2 tornou-se objeto de desejo e distinção entre indivíduos, nós já sabemos. Agora, saber o porquê este aparelho que ainda precisa mostrar sua função consome de nós muito mais do que apenas o nosso dinheiro.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Talvez exista outra Londres




Tenho me estranhando um pouco com algumas coisas que vejo por aqui em Londres.
Em boa parte de minha vida ouvi muitos dizerem que os ingleses eram educados e pontuais. Também ouvi muitos tomarem Londres como com um dos exemplos para se defender determinadas posições políticas como é o caso do prefeito Kassab com seu "cidade limpa" e alguns que, evangelicamente, pregam o fim da publicidade infantil como a resolução dos problemas relacionados à infância em nosso país.
Em primeiro lugar, basta usarmos uma única vez o metrô (tube - nome mais do que adequado) aqui em Londres em horário de pico para percebermos que qualquer generalização pode nos levar ao erro. Ser educado, sem dúvida, está longe de ser o que se pode ver e experimentar nos corredores e nos vagões dos tubes. Um indivíduo pouco atento é facilmente atropelado por homens e mulheres que usam os extensos corredores das estações como pista de corrida e, às vezes, podemos nos lembrar do tromba-tromba dos parques de diversões. Aqueles conhecidos lugares preferenciais para grávidas e idosos não funcionam muito bem por aqui, a lei parece ser a do mais rápido e quando este está sentado em um destes lugares prefenciais basta abaixar a cabeça e preservar-se no direito de desprezar a existência dos outros.
Uma cena outro dia me chamou a atenção. Enquanto a maioria esperava para entrar no vagão do metrô em uma estação, uma jovem super apressada e ansiosa ultrapassou a todos às cotoveladas. Esbarrou e empurrou várias pessoas até conseguir sentar-se antes dos que estavam à espera há mais tempo. Ao acomodar-se tirou seu estojo de maquiagem da bolsa e começou a se pintar como se nada tivesse acontecido. Vai ver qe se tratava de uma maquiagem de emergência. Uma das vítimas do atropelamento da jovem, uma senhora com mais ou menos o dobro da idade dela, chegou a reclamar, mas esta ignorou totalmente focando-se em seu espelhinho. A questão é que por aqui o individualismo, típico desta modernidade que se dilui rapidamente, é flagrado de forma muito evidente. Uma amiga que morou por aqui algum tempo sempre disse que morria de medo de ter algum ataque no meio da rua e morrer por falta de socorro pelo fato das outras pessoas preservarem o direito dela de morrer subitamente sozinha no meio da rua. Confesso que a inexistência do outro me incomoda. É como se vivessemos isoladamente em meio a muita gente. Sem dúvida, há ganhos neste tipo de postura. Ninguém se preocupa com o que você veste, com o que você faz etc. Cada um na sua, não é este o lema da pós-modernidade? Entretanto, sabemos que não é possível chegar a algum lugar sozinho. Não é por acaso que aqui se encontra a clínica de psicanálise do mundo: a Tavistock. Nunca discutimos tanto conceitos como comunidades, amizade, tribos, redes e nunca vivemos tão sozinhos em meio à multidão. Estar agrupado não é sinônimo de estar junto. Grupo é diferente de time, mais de mil amigos no Facebook não nos garante diante da ameaça da solidão.
"Polite"? Onde, quando? Ah sim, depois de levar um empurrão ou um chute na canela, você ouve um belo e educado "sorry".
Sem dúvida há muitos individuos educados e prestativos pelas ruas de Londres. Nosso landlord faz juz ao "lord". Sr. Charles parece ter saído daqueles filmes de época que assistimos no cinema. Pensando um pouco, notamos que indivíduos educados e mal-educados temos nós também, aos montes. Quantos sr. Charles não nos deparamos ao longo de nossas vidas? Novamente, o erro da generalização poderia nos levar a uma idealização que nos tira de perto a realidade.
Nunca a expressão "para inglês ver" fez tanto sentido. A pontualidade britânica tem uma variação de mais ou menos 15 minutos. Eles mesmos reconhecem que a fama da pontualidade foi uma criação de algum cidadão de outro lugar que estava um tanto empolgado com a vida britânica.
Também é normal por aqui mudarem o ponto final de um ônibus sem qualquer explicação e deixarem os passageiros no meio do trajeto sem saberem muito o que fazer. Muitos, acostumados com este descaso, vão até o primeiro pub que encontram tomar uma outra pint antes de resolver o que fazer para chegar em casa. Aliás, o ambiente dos pubs é um dos bons exemplos desta cidade. A maioria deles é democrática, lugar para todos. Digo a maioria porque em um ou em outro sempre podemos ter problemas com os atendentes ou frequentadores. Nada diferente do que já conhecemos.
Por outro lado, é estranho ter por parte de alguns políticos da cidade de São Paulo a justificativa do tal "Cidade Limpa" pautada em falas como "na Inglaterra é assim" e, portanto, aqui também deveria ser. Como se, o que fosse bom para os ingleses seria para os brasileiros. Não quero criticar a ideia do "cidade limpa" que reelegeu o nosso popularesco prefeito e tirou das ruas de São Paulo a poluição visual dos outdoors e painéis que realmente eram exageradamente explorados. Entretanto, se observarmos atentamente, esta ação populista lotou nossas estações de metrô com anúncios e lojas. As escadas e corredores de algumas estações lembra a 25 de março. Talvez para este prefeito nosso metrô não seja parte da cidade e, portanto, não precise estar limpo. Ou talvez os interesses sejam outros.
E o marketing infantil? Os fundamentalistas que estão com voz forte em nosso país adoram dizer que aqui na Inglaterra é proibido isto e aquilo em relação ao marketing infantil. Dizem estes: "lá o marketing infantil é proibido e não há publicidade voltada às crianças", "defendemos a proibição como é praticada em países de primeiro mundo como a Inglaterra". Que proibição? Em qualquer loja por aí você consegue comprar uma espingardinha de brinquedo e as vitrinis das lojas são lotadas de publicidade. As crianças bricam, como em outros tempos, com armas de brinquedos, espingardas de plástico etc. Nem por isso a criminalidade aqui é alta e as crianças deixam de ter infância. Muito pelo contrário. Aliás, Londres é uma cidade super amiga das crianças. São centenas, milhares nas ruas participando do dia-a-dia da cidade e dando uma leveza à dura vida Londrina. É comum algumas sorrirem para você nos vagões de metrô.
O que é proibido por aqui é o acesso fácil às armas de verdade, não as de mentira. Parece irônico um país onde um plebiscito politicamente construído aprove a posse de arma de fogo ao mesmo tempo em que proíbe a venda de armas de brinquedos para as crianças. Não sou a favor das armas de brinquedos, sou sim é radicalmente contra termos uma política que mune os crimonosos com armas para serem usadas contra nós mesmos.
E aqui eles permitem sim propaganda infantil na TV. O que realmente acontece é que há uma preocupação diferente por parte dos envolvidos com o marketing infantil. Como em outros países da Europa como da América do Norte, empresas, agências de publicidade, governo e representações legitimadas da sociedade decidem o que é ou não adequado para ser veiculado. Desta forma o desequilíbrio de forças é melhor equaciondao. Atenua-se o conflito entre empresas e interesses públicos. Quando não há o diálogo entre estas duas partes, como em nosso país, o jogo fica desequilibrado, vira caso de polícia.
A preocupação com as crianças em relação à mídia tanto aqui na Inglaterra como em outros países da Europa como já observei em outro post está em outro lugar. Há uma busca pelo melhor conteúdo dos programas de TV. Basta darmos uma olhada na qualidade das produções infantis da BBC. Com o conflito de interesses em torno da publicidade equacionado de forma madura, pode-se focar nos pontos mais relevantes e contar com a TV como aliada e não como inimiga, herança discursiva típica dos anos 70em nosso país, quando futebol e novela eram considerados instrumentos de alienação. Além disso, as crianças não são expostas às novelas das oito com suas cenas eróticas e diálogos complexos demais para serem compreendidos pelos pequenos. Ao invés de gastar energia e recursos tentando proibir o anúncio de um tênis do Homem Aranha na TV, a busca em aprofundar o conteúdo infantil trazendo mensagens direcionadas à educação, à tolerância, à preservação do meio-ambiente parece bem mais adequado, não?
O interessante é que as coisas boas daqui que tornam esta cidade uma das melhores do mundo para se viver não são lembradas nem pelos nossos políticos nem pelos fundamentalistas da anti-publicidade.
Os parques são lugares inesquecíveis com opções de lazer arrasadoras. Uma cidade grande precisa de pulmões, precisa de áreas verdes para sua população relaxar. Uma cidade com foco no lazer tende a ser uma cidade mais sadia, mais tranquila. Nunca ouvi um político de São Paulo mencionar os parques que "lá" em Londres existem e em São Paulo não. Muito pelo contrário, estimulam a especulação imobiliária ao máximo sufocando cada vez mais as ruas de nossa cidade, inflando o valor dos imóveis para se lucrar mais e mais, deixando seus habitantes com quase nenhuma opção de lazer. A não ser que tenha uma alta renda e pague muito bem por isso. Precisaríamos de, no mínimo, uns 30 Ibirapueras em São Paulo para podermos aliviar nossa tensão diária. São Paulo é uma cidade tensa, nervosa, agressiva com seus habitantes. Também não ouvimos nos discursos dos que dizem proteger as crianças qualquer menção às áreas de lazer, aos parques como opção à TV e ao computador que afirmam prejudicá-las. Só ouvimos dizerem "desligue a TV", "parem de jogar videogame", "saiam das redes sociais da internet". As crianças menos privilegiadas financeiramente de São Paulo desligam a TV e o computador e fazem o que e onde? Talvez este discurso "desligue TV" refira-se apenas às crianças que vivem em imensos condomínios fechados com amplas áreas de lazer. Estes têm o que fazer, para onde ir. Os menos privilegiados não têm opção. É preciso democratizar o discurso, incluir todos e não apenas alguns.
Outro ponto que nossos políticos e apolcalípticos da publicidade se esquecem de comparar. Os museus londrinos são exemplos de organização, qualidade de acervo e divulgaçao da cultura. E são de graça. Crianças e adultos são vistos aos montes nos corredores consumindo o que as obras de arte ali expostas têm para oferecer.
E o rio Tâmisa? Sem cheiro, navegável e com paisagens inesquecíveis às suas margens. Este rio é outra opção de lazer imperdível para quem por aqui passa ou aqui habita. Nada como passear às suas margens no final de tarde. Também estou à espera de um político paulistano que compare nossos tão judiados Tietê e Pinheiros com o Tâmisa.
Parece ser mais adequado a eles travar uma disputa de poder entre os partidos para provar quem é mais ou menos corrupto.
Por estas e outras que tenho pensado senão desembarquei em uma Londres diferente das dos políticos e fundamentalistas da anti-publicidade. Que seja dito que, normalmente, não gostamos de dizer: quando convém, compara-se nosso país colocando-o na condição de "atrasado", quando não, finge-se que está tudo bem e a culpa é do outro partido, do governo anterior, das empresas e do coitado do brasileiro que trabalha, trabalha e trabalha e leva a fama de dar um jeitinho em tudo. Damos é um jeitão para tornar nosso país um excelente lugar para viver, apesar de seus políticos e de sua politicagem.